Angélica Freitas: Versos que atormentam

Em 2008, a poeta Angélica Freitas passou uma temporada na Holanda. Não tinha um tostão no bolso, mas tinha uma bicicleta velha e um cartão de biblioteca. O combo permitiu muita leitura e o tempo deu início à gestação de Canções de atormentar. Nos anos seguintes, Angélica foi morar na Argentina e em Pelotas. Só voltou para São Paulo em 2017. “Escrevi muito nessa época, inclusive o poema que dá título ao Um útero (é do tamanho de um punho) eu escrevi quando estava em Delft. O que acontece é que eu abro o caderno e deixo as coisas acontecerem, normalmente, e às vezes elas acontecem. E quando elas acontecem é muito claro pra mim. Esses poemas são os que quero mostrar”, conta.

No meio do caminho entre Delft e São Paulo, Angélica publicou Um útero é do tamanho de um punho e Guadalupe, uma história em quadrinhos criada em parceria com o ilustrador Odyr Bernardi. Dois livros, como ela diz, “ligados à mulher”. “Foram projetos de escrita. Mas paralelamente eu estava lá com os meus cadernos, escrevendo o que aparecia. Acabei voltando, sempre com essa prática de escrita que me acompanha há muitos anos. Então eu tinha já muitos poemas para publicar, e até alguns poemas acabaram sendo publicados em revistas no Brasil e fora. Juntei no Canções aqueles que me pareciam representar esse período da minha vida, e os temas recorrentes pra mim: mulher, nacionalidade, poesia, etc”, avisa a autora, que hoje passa uma temporada na Alemanha como parte do programa de residência artística Artists in Berlin, do Deutscher Akademischer Austauschdienst, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico.

Na capital alemã, Angélica conta que está escrevendo “umas coisas”, lendo muito, absorvendo a vibe da cidade que ela descreve como muito generosa e repleta de bons cafés. É de lá que observa as transformações do mundo e a pandemia, mas também as relações humanas, a condição feminina, o lugar da poesia e a construção da própria identidade, temas presentes em Canções de atormentar. No livro, os versos revisitam a infância da autora, mas também o Brasil contemporâneo, aquele marcado pela violência da repressão policial, pelo machismo, pela perplexidade diante de uma ideia de país que volta e meia desmorona.

Há muitas homenagens e citações no livro – Ana Cristina César, Fabrício Corsaletti, Veronica Stigger. Pode contar um pouco o que te inspirou nessas pessoas e qual o papel delas na tua poesia?

Fabrício e Veronica são companheiros de estrada. Admiro muito os dois, não só pela obra, mas pelas pessoas incríveis e generosas que são. Uma conversa de meia hora com os dois me dá a certeza de que estou no meu próprio caminho. Não sei se dá pra entender. E a Ana C, bom, é amor antigo. Mudou a minha maneira de escrever, lá quando eu tinha 15 anos. É um caminho muito maluco esse da poesia, às vezes é solitário e confuso, então quem te avisa dos becos sem saída e cachorros brabos e também das melhores vistas pra descansar merece todas as homenagens.

Em poemas como “você não sabe o que é uma teta caída” e “três poetisas em forma de pera”, é a questão feminina que te conduz? Por quê? E qual o lugar dessa questão na tua poesia?

A questão feminina está sempre pra mim, porque absurda. Você nasce de um jeito e te obrigam a ser de um time. Mas se me enganaram, foi por pouco tempo. Na adolescência eu já saquei que não me identificava com o mundo feminino, nem com o masculino. Como não colocar isso nos poemas? As relações entre as pessoas são muito loucas, e os meus poemas são também respostas ao mundo. Mas se estou aqui mostrando a minha língua, também devo dizer que, com o passar dos anos, tenho sentido compaixão pelo absurdo. Difícil de explicar.

Pode contar um pouco sobre a origem de “algum café em rosário”? O capitalismo oprime o poeta? Qual a importância do ócio para a criação poética?

O capitalismo é a nossa relação com o mundo, com as pessoas. Pelo menos no nosso tempo de vida, é o tipo de relação que tivemos. Trocamos o nosso tempo e energia vital por dinheiro, que é uma coisa simbólica, não existe na realidade. Não é o ideal, acho que podíamos inventar outras maneiras de viver melhor. Mas as pessoas têm medo de perder o pouco que têm, de viver miseravelmente. Sou a favor da renda universal básica, por exemplo. Acho que dá pra fazer. Tudo dá pra fazer. Mas temos que imaginar o mundo coletivamente, não acho que você possa decidir as coisas pelos outros. Como você faz pra botar todo mundo pra imaginar o mundo? Acho que quando fizeram o orçamento participativo lá em POA foi um início. Mas deixa eu puxar a brasa pra minha sardinha, acho que poetas fazem isso. Artistas fazem isso. A minha sardinha é nossa.

Em “as roupas vêm da ásia” você fala das distâncias físicas que são encurtadas pelo nosso modo de consumir (consumo, aliás, é tema de outros versos né?): como você encara esses modos de consumir, já que é um tema que vez ou outra aparece em algum poema?

Bem, eu não romantizo a pobreza e acho que essa ideia de poeta pobre e fodida não é pra mim, eu gosto de cafés e viagens, mas o fato é que depois que larguei o meu emprego de jornalista, depois que abri mão de um salário que entrava todo mês na minha conta, pra me dedicar a escrever poesia, não tive dinheiro pra comprar nem livro nem roupas por muitos anos, uns dez anos, vai. Comecei a ganhar roupas das minhas irmãs, roupas que elas não queriam mais, ou às vezes me compravam um casaco que eu estava precisando, coisas assim. E usei, uso, essas roupas até gastar. Fiz um poema pra umas calças que me acompanharam muitos anos, tá no livro. Ganhei da Renata, minha irmã. Ganhei uns tênis Nike da minha irmã Cristina há 5 anos, não tirei dos pés desde então. às vezes mostro os tênis pra ela pela câmera do celular, quando falamos. “Lembra desses tênis”, eu pergunto. E ela ri “Nossa! Tu ainda tá usando eles.” Tô. O “As roupas vêm da Ásia” tem a ver com a constatação de que quase tudo que estava em contato próximo com a minha pele não foi feito no país onde nasci, mas num continente longínquo, a Ásia. A primeira vez que me dei conta disso, que uma jaqueta era de, sei lá, Bangladesh, me deu uma vertigem. E fiquei pensando: esse pano aqui, antes de ser pano, era uma planta em Bangladesh. E foi costurado por uma pessoa que vive em Bangladesh. Dessa constatação a pensar: quem será, quantos anos tem, como vive, é um pulo pra mim. Essa pessoa gastou horas da vida dela pra costurar a jaqueta que estou usando. Gosto de imaginar os fios que me ligam a ela. E quero que ela esteja bem, que tenha onde dormir, o que comer, que tenha uns momentos em que se inunde de beleza.

Você morou fora um tempo, está passando uma temporada na Alemanha, enfim, vai e vem há alguns anos. Que saudade você sente do Brasil nesses intervalos no exterior?

Não compro muito a ideia de nacionalidade, de regionalismo. Uma série de decisões tomadas por meus antepassados me fez nascer no Brasil, em Pelotas. Tenho passaporte português. E aí? Vivi em muitos lugares, todos eu chamei de casa. Brasil pra mim não é o território. Quando ouço música brasileira, Tom Zé, por exemplo, sinto: “Eu venho daí”. Muito claramente. Quando ouço o Vitor Ramil, também. Se estou longe de Pelotas há muito tempo e ouço “Deixando o Pago”, do Vitor, pode ser que eu chore. Brasil é o lugar onde tem a maior concentração de pessoas que eu amo. E eu tenho saudades delas. Acho que estamos passando por uns tempos difíceis, e não preciso me alongar aqui, mas é isso, estamos passando.

Fonte: Correio Braziliense