Antologia de Veríssimo é passeio por risos e textos inéditos

A obra de Luís Fernando Veríssimo é vasta e quase infinita. Revirar os arquivos do escritor gaúcho pode trazer revelações como textos inéditos ou publicados uma única vez, mas também pode render compilações de ilustrações, de frases e de outras modalidades que fazem os editores se animarem. Veríssimo sempre vende bem. E agora está de volta com uma compilação da Objetiva na qual o editor Marcelo Dunlop promete reunir o melhor da produção do gaúcho nos últimos 50 anos, incluindo “pepitas raras”.

Veríssimo antológico nasceu de uma pesquisa que incluiu viagem a Porto Alegre para revirar os arquivos do próprio autor. Dunlop conta que a ideia surgiu depois de produzir e organizar Veríssimas, antologia de citações, publicada em 2016 para celebrar os 80 anos do escritor. Na época, o editor organizou a coletânea tendo como base suas próprias estantes, nas quais guarda uma coleção de mais de 80 livros do gaúcho. “O maior desafio foi encontrar textos saborosos que não estavam nesses livros nem nas minhas prateleiras. Fui a Porto Alegre, fui a bibliotecas, entrei em lutas corporais com ácaros imensos, mas creio que conseguimos”, conta. “No fim das contas, reli a obra do LFV, me diverti e ele ainda me convidou para uma ou duas caipirinhas numa noite memorável em Porto Alegre. Ou seja, foi a pesquisa perfeita.”

Alguns textos incluídos na antologia foram publicados uma única vez. São títulos como Super-heróis práticos, que saiu na Zero Hora em 1994, Vingador da Lady Di, publicado na Caros Amigos em 1998, ou Gatos e ratos, de 1982. Um deles deu trabalho extra ao editor. A verdade, por exemplo, um texto sobre o tamanho da mentira e como traições e violência atraem mais que histórias simples, trataria, segundo Dunlop. Esse texto, ele só conseguiu encontrar no Rio Grande do Sul, em uma antologia sobre Machado de Assis. “Quem quiser estudar um dia a crônica brasileira vai precisar ler Verissimo antológico”, garante o editor.

Os personagens clássicos, no entanto, ficaram de fora. O leitor não vai encontrar por lá a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, Dora Avante e o Analista de Bagé. Eles merecem uma antologia à parte. Também há uma característica atemporal na seleção de 300 textos de Veríssimo antológico, o que permite encará-los como “crônicas com cara de contos, ou contos com cara de crônicas”. “São temas clássicos da obra de LFV, como recriações históricas, passagens bíblicas, relacionamentos amorosos, paródias de tramas policiais, flagrantes do dia a dia, a mística do futebol, o prazer da comida, a linguagem e as palavras e reflexões sobre a condição humana. Alguns deles, inéditos há mais de 30 anos”, avisa Dunlop, que também cuidou para que a compilação não ficasse com cara de Comédias da vida privada, o retorno. “Queríamos um apanhado mais completo, um grande balanço desses 50 anos de produção do Veríssimo”, diz. “Creio que o maior ensinamento foi perceber como ele nasceu praticamente pronto. Nos anos 1970 já fazia umas crônicas geniais, maduras, quiçá revolucionárias. E a sequência cronológica permite acompanhar o rumo do escritor e de seu estilo, década a década.”

Para Dunlop, Veríssimo é um escritor universal, estimado do Congresso ao Zeca Pagodinho. “Leitores de 9 a 99 anos captam igualmente seu humor e se divertem. Mas talvez sua importância seja pela influência que teve, nos últimos 50 anos, em praticamente todos os nossos cronistas e nossas cronistas de humor – não apenas no Brasil, mas em Angola e Portugal também. O Verissimo, no futebol, seria uma espécie de Pelé misturado com o Jorge Jesus. (Imagina o sotaque?) Enfim, um craque dentro das quatro linhas e ótimo professor”, define. Para o editor, o humor de Veríssimo pode ser classificado como “diurno”. “Digo isso porque li muito de sua obra na cama, e sempre acordava a companheira de madrugada, quando gargalhava convulsivamente. Não há, para os críticos, aqueles ‘autores que incomodam’? Verissimo alegra a gente e incomoda os outros, principalmente quem está dormindo por perto. Mas vale a pena”, avisa.

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Fonte: Correio Braziliense | Blog Leio de Tudo