Best-seller ‘As outras pessoas’, C.J. Tudor envolve leitor em rede de mentiras

Está em “As outras pessoas”, o novo suspense da best-seller inglesa C. J. Tudor, um dos mais belos ensinamentos da literatura mundial, daqueles que devemos aplicar à própria vida em momentos de hesitações e questionamentos existenciais: “Quando se elimina o impossível, o que resta, não importa quão improvável, deve ser a verdade”.

Essa pérola não é da lavra de Tudor, e sim do eterno Arthur Conan Doyle (1859-1930), na voz de Sherlock tu já Holmes em “O signo dos quatro” (1890). A citação aparece meio perdida já no princípio de “As outras pessoas”, mas de vez em quando voltará à cabeça dos leitores mais experientes que se embrenharem nas suas páginas. Parece que foi a partir dessa frase que a inglesa autora de “O homem de giz” (2018) e “O que aconteceu com Annie” (2019) construiu em seu terceiro suspense, que acaba de chegar às livrarias brasileiras.

A propósito, caso queiram se embrenhar na obra de Tudor, os tais leitores mais experientes também haverão de exercer com determinação o que os entendidos chamam de “suspensão da descrença”. Trata-se de um exercício mental que, neste caso, não é tão simples: aceitar que tudo o que se lê é verdade. Consiste, basicamente, em anular seu senso crítico em favor de agradáveis horas de entretenimento literário.

Digo isso porque “As outras pessoas” é um me-engana-que-eu-gosto que abusa da arte (ou ciência) de enganar o leitor. OK, toda literatura tem isso, especialmente histórias de suspense, mas Tudor talvez tenha exagerado um pouco no tempero da mentira — que, como se sabe, é questão de gosto. A certa altura, um de seus personagens até comenta que “a verdade é superestimada”. Então tá, vamos nessa.

Cadeia de coincidências

Considerações extemporâneas à parte, passemos ao enredo. Já de cara temos Gabe, um sujeito em crise no casamento, travado num engarrafamento a caminho de casa. Atrasadíssimo, está tenso porque prometera à mulher que chegaria cedo, a tempo de brincar com Izzy, a filha de 7 anos, fingindo que aquela é uma família feliz.

Mas eis que, ainda ao volante, envolto em pensamentos vãos, ele percebe que é justamente sua filha quem está sendo levada num carro à frente. Gabe estranha, claro, e tenta chegar junto, mas o outro veículo consegue tomar a dianteira e some na poeira, mesmo num engarrafamento bruto. Como, ainda por cima, está sem bateria no celular, ele para num posto de gasolina e liga para casa. Para sua surpresa, quem atende é uma detetive da polícia. Boa coisa não pode ser. De fato, não é: a mulher e a filha dele estão mortas.

Como assim, se ele acaba de ver a menina em outro carro? Pois é com a certeza de que ela está viva que Gabe dedica-se apenas a buscar por Izzy. Passa então alguns anos percorrendo a tal estrada para cima e para baixo, até que tudo começa a clarear. Do nada, puff, a roda do destino arrasta uma pesada corrente de coincidências, trazendo à tona uma penca de crimes mal resolvidos (com os quais Gabe não tem nada a ver), para que a conversa chegue a um final feliz. Ou não.

Fã confessa de Stephen King, a escritora inglesa, de 48 anos, é engenhosa, mas delira além da conta. Se perde em verossimilhança, ganha em autoconfiança. E sabe que pode contar com seu público. “O que aconteceu com Annie” e “O homem de giz”, ambos também lançados aqui pela Intrínseca, venderam milhões de exemplares em todo o mundo, sendo 220 mil no Brasil — onde é muito querida, a julgar pela sua popularidade durante a Bienal do Rio em 2019 e sua permanência na lista dos mais vendidos.

Para o bem da popularização da leitura, tomara que o sucesso de Tudor continue e abra caminhos. Mas certo é que, para os mais exigentes, “As outras pessoas” só decola contando com extrema complacência do leitor e seu desapego aos fatos da vida.

Um exemplo ao acaso: um pai zeloso não teria reconhecido o cadáver da filha em situação tão suspeita? Cabe ao leitor, portanto, fazer seu papel de inocente na trama. Quando ele esquece as impossibilidades, tudo se ajeita. É este, afinal, o mandamento de Conan Doyle.

Nelson Vasconcelos é jornalista

“As outras pessoas” Autora: C.J. Tudor. Editora: Intrínseca. Tradução: Giu Alonso. Páginas: 304. Preço: R$ 54,90. Cotação: Bom.

Fonte: O Globo