Desencaixados e solitários

Controle nasceu de uma encomenda para uma coletânea que envolvesse música e bandas específicas. A coletânea não saiu, mas Nanda, ou Maria Fernanda, tomou forma e o primeiro romance de Natalia Borges Polesso, felizmente, ganhou vida. Controle vem embalado por New Order e Joy Division em um texto cheio de referências afetivas para quem foi adolescente nos anos 1980 ou 1990.
Maria Fernanda era uma adolescente quando caiu da bicicleta na “pistinha” de bicicross, bateu a cabeça e teve o primeiro surto de epilepsia. Dali pra frente, a vida da menina acabou pautada pelo distúrbio. Superprotegida pelos pais, envergonhada pelas crises que faziam os olhos revirar e um tanto paralisada pela medicação nem sempre adequada, a personagem cresce numa bolha. Aos 34 anos, ela se depara com uma adulta cheia de características infantis.

Graças à música e, especialmente, ao New Order, pelo qual é obcecada, ela cria coragem para se afastar da proteção excessiva: um show da banda formada pelos que sobraram do Joy Division após o suicídio de Ian Curtis faz a garota atravessar o país e viajar do Rio Grande do Sul natal a São Paulo. Na capital, cercada dos poucos amigos remanescentes de um segundo grau traumático e nunca concluído, Nanda finalmente se depara com ela mesma.

A pulsão de vida e morte tem assento constante na gangorra emocional que balança na cabeça da personagem. Mas, ao contrário de Curtis, ela quer viver. E desse processo faz parte também a descoberta do próprio desejo, da paixão pela amiga Joana, do confronto e da aceitação ao se perceber e reconhecer homossexual. É, aliás, com uma ternura tocante que Natalia trata das relações homoafetivas, sempre presentes em suas narrativas. Nesse contexto, as sensações de solidão e não pertencimento de Nanda são de se esperar, mas são também comuns e universais em boa parte das adolescências. “Controle é sobre o exercício de viver. O desejo age como impulso, é preciso desejar a vida. A Maria Fernanda tem medo da vida. Mas ela nunca deseja morrer. Não é um livro sobre morte. É um livro sobre querer a vida. Sobre ter vontades, até sobre descobrir as vontades, se assustar com as vontades, ser feliz com as vontades. É sobre sentir”, avisa Natalia.

Controle foi escrito para uma coletânea que não saiu. Como ele chegou à forma de romance? E como você criou a Maria Fernanda?

A coletânea não saiu e eu deixei o livro na gaveta por uns dois anos. Aí, em 2018, eu pensei que valia a pena reencontrar as personagens e me reconectar com essa narrativa. E funcionou. Fui desenvolvendo melhor a trama, pensando nos capítulos, nas conexões, em Joana, Davi, Antonio, etc. Fui desenvolvendo melhor Maria Fernanda, que ganhou esse nome por causa de uma amiga querida do rolê da bicicleta, que em 2015, enquanto eu escrevia o livro, esteve muito comigo. Maria Fernanda tem um pouco dessa amiga, assim como tem um pouco da minha adolescência, assim como tem um pouco de Ian Curtis, assim como tem um pouco das pesquisas que fiz especificamente para a personagem.

“Mas quando estamos separados, cindidos de nós, quando eu não sei dos meus desejos imediatos, como posso entender a urgência do outro”: até que ponto Controle é sobre a solidão de estar cindido, de não se encaixar?

Eu acho que Controle é sobre solidão e desencaixe, mas é também sobre desejo e encontro. É sobre solidão porque tenta mostrar que, de certa forma estamos muito sozinhos no mundo, na vida, especialmente se não nos compreendemos, se ao menos não tentarmos nos compreender, nos amar. Não sei se conseguimos conectar realmente com os outros sem fazer isso primeiramente com a nós mesmos. Acho que há um esforço mútuo das forças externas e internas da gente e quando isso acontece, e não é sempre e nem continuamente, é algo importante.

A solidão de Maria Fernanda diante dos próprios desejos e da própria doença é também uma solidão social?
É muito. A Maria Fernanda tenta representar os que não se encaixam por algum motivo, os estranhos, os não populares, os atípicos. Foi difícil pensar a narrativa a partir dela, em primeira pessoa, porque não dá pra dizer que a Maria Fernanda é superlegal. É uma personagem complicada, o leitor precisa estabelecer uma relação de empatia na narrativa. Eu acho que tem funcionado. E é meio isso que vai provocar esse sentimento de solidão social.

Pode falar um pouquinho por que é importante fazer literatura que fala sobre a solidão de não se encaixar socialmente, especialmente nos tempos que estamos vivendo?
Acho que somos um bando de desencaixados que por vezes damos a sorte de encontrar um grupo no qual nos sentimos bem, no qual nos encaixamos, mesmo que momentaneamente. É ali que vamos exercitar nossa capacidade de se relacionar. Acho que temos questionado cada vez mais a ideia de normalidade, a ideia de um sujeito hegemônico que vai se contrapor com todas as outras identidades. Creio que trazer esses pontos de vista para o centro da narrativa seja algo importante. E isso tem acontecido muito com a literatura produzida contemporaneamente no Brasil.

Controle é um livro muito delicado. A delicadeza é importante para você? O quanto há de dor na delicadeza?
Obrigada! Pra mim, o trabalho com a linguagem é fundamental. Eu acho que consigo ser simples e consigo imprimir poesia nessa simplicidade. Eu gosto muito do que diz Roland Barthes sobre o ofício da escrita. Ele diz que a linguagem e o estilo são forças cegas e estão ligadas a aspectos sociais e de vida do autor ou autora e que o trabalho da escrita está neste entre. Escrever com o que tu chama de delicadeza está neste entre, eu acho.

Fonte: Correio Braziliense