Escritora reflete sobre a força que vem do ativismo negro

As eleições que levaram a afro-americana Kamala Devi Harris a ocupar a vice-presidência dos EUA demarcam um passo importante na simbologia da resistência negra do país e é um ponto saliente na constante curva da luta pelos direitos civis na maior potência econômica do planeta. O Brasil, embora com papel destacado nas Américas, ainda patina no campo do combate às desigualdades sociais e raciais, com fulcro no racismo estrutural. Certamente a vitória de Joe Biden-Kamala, da mesma forma que foi sentida na maior parte do mundo, como sintoma de trégua dos diálogos bélicos, no caminho da esperança e da paz, é sentida aqui também. Além do desafio enfrentado pelas urnas municipais, que elegeram bom número de representantes, entre mulheres e homens negros, para nossos padrões, dez estados ainda vão contar com 59 legisladores de comunidades remanescentes de quilombos, segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Estes números tendem a constituir, pela sua inovadora representação, novo cenário no contexto narrativo do nosso arquicolonial processo eleitoral.

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Na real, o que tudo isso tem a ver com o livro da escritora e ativista afro-americana Keeanga-Yamahtta Taylor? Em termos de Brasil, quase tudo. Para os EUA, talvez nem tanto, com a diferença de que, diferentemente de boa parte do mostruário brasileiro de publicações sobre o tema, a obra de Taylor, “#VidasNegrasImportam e liberdade negra”, lançada pela Elefante, foi escrita por uma mulher negra e traça um diagnóstico profundo de mais de quatro décadas de ativismo negro estadunidense, repassando discursos que vão de Luther King a Obama. Releituras da lógica das pregações, como eram vistas as apaixonantes palestras de King, no mesmo compasso de atuação radical de Malcolm X, respectivamente, são refletidas no livro como os ideais do “sonho” de um e do “pesadelo” de outro.

Correspondências pontuais, de ambos países — a discriminação cotidiana, com base numa forte cultura racista, e a ação violenta da polícia —, andam juntas e, muitas vezes, sob a proteção do estado de direito. Isto se dá por duas vias funcionais, que o livro de Taylor aborda: pelo encarceramento em massa (cerca de 25% da população carcerária do mundo está nos EUA, onde o contingente negro representado é seis vezes maior do que o do branco), e pela alta taxa de assassinatos, muitos sem solução, o que nos remete a um dos capítulos do livro sobre “liberdade e escolha”.

Para a autora, essas altas taxas são “a perpetuação de estereótipos profundamente enraizados” que retratam os afro-americanos como seres “particularmente perigosos, imunes à dor e ao sofrimento.” (Daí a desigual analogia: tudo que é bom para os EUA é bom para o Brasil, no sentido inclusive do sistema de mortes cruéis, aqui praticado por “auto de resistência”).

O fio condutor de “#VidasNegrasImportam e resistência negra”, lançado em 2016, tem como base debater e resgatar as origens do movimento #BlackLivesMatter — surgido como contraofensiva ao assassinato do jovem negro Michael Brown, em 2014. Taylor, doutora em estudos afro-estadunidenses e autora de aplaudida tese sobre a crise urbana e sua correlação com “a moradia negra” nos anos 1970, ao pesquisar a raiz daqueles acontecimentos vai se deparar com intricado dilema político vivido por parte significativa dos americanos: além da presidência de Obama (2009-2017), primeiro homem negro a ocupar a Casa Branca, projetam-se diante de si um parlamento com grande representação de políticos eleitos, um bom número de endinheirados executivos, membros da alta sociedade artística e profissionais do ramo esportivo multimilionários, igualmente negros.

O livro de Taylor traz para a ordem do dia o velho conceito do “daltonismo racial” do passado e recoloca em cena a premissa, que alimenta o imaginário de milhares de pessoas, pelo menos até o momento, de uma sociedade americana “pós-racial”. Ou seja, uma sociedade que teria ultrapassado o dilema do racismo propriamente dito.

O assassinato em maio de George Floyd, no entanto, que desencadeou grande onda de manifestações sob o lema “Eu Não Consigo Respirar”, impõe outra ordem para a aceitação de um pensamento americano antirracista. Já por aqui, segundo dados do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o Instituto Igarapé, as taxas de homicídios de negros cresceram 17% de 2005 a 2015. Em 2018, dos cerca de 56 mil assassinatos registrados estatisticamente, quase a metade se relaciona a jovens negros, entre 15 a 29 anos.

Os choros de mães e demais parentes das vítimas são os mesmos, nos EUA e no Brasil. O livro de Taylor só nos faz refletir que temos uma realidade muito próxima da americana, sob o ponto de vista da violência e do racismo. Como não lembrar as mortes de João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, ou de Agatha Vitória Sales Félix, de 8, ou ainda do jovem violoncelista Luiz Carlos Justino, covardemente preso numa blitz, e, como ele mesmo declarou, milagrosamente “salvo pela música”. E, em 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil, o brutal caso de João Alberto Silveira Freitas, espancado e asfixiado até a morte por seguranças do Carrefour.

Portanto, ler “#VidasNegrasImportam e resistência negra”, nesse contexto, trará para a sociedade brasileira reflexões duras e doloridas, com gosto de lágrimas e sangue — sobretudo para a maioria da população negra, constituída por pretos e pardos, conforme a nomenclatura oficial. Mas é um exercício extremamente necessário, não só para a conscientização de negras e negros de que, tanto lá fora, na superpotência, quanto aqui dentro, no estado tupiniquim, há um alto preço a pagar por um futuro de migalhas.

Fonte: O Globo