Michel Laub e os dois lados de um país

Retrato autor Michel Laub para o livro "O Tribunal da Quinta-Feira".

A certa altura de Solução de dois estados, a cineasta alemã que produz um documentário sobre a violência no Brasil se dá conta de que sua entrevistada não consegue separar o lugar do ódio e da vingança e do espaço íntimo no qual nada disso existe, mesmo quando se perde alguém em ações violentas. No novo romance de Michel Laub, essas duas noções estão em constante embate e servem de arena para os sentimentos conflituosos que povoam as mentes de Raquel e Alexandre.

A dupla de irmãos protagoniza a série de entrevistas realizadas pela personagem da cineasta. Raquel é artista plástica e mora na Inglaterra. Performer engajada em discutir sexualidade, gênero e discriminação, aceita o convite para participar de um debate no Brasil. No momento de realizar a performance, é agredida por um sujeito ligado a Alexandre, cujo discurso de valorização da meritocracia flerta com a violência, com a radicalização e com o crime organizado. Os dois não convivem e se odeiam. Também representam um Brasil cada vez mais dividido.

Escrito em forma de entrevista, um desafio para Laub, Solução de dois estados traz personagens polarizados, embora não radicalizados. “São pessoas típicas do nosso tempo, mas eles têm uma coisa muito individual deles. Em vários aspectos, são intransferíveis. Alexandre é muito vidrado pelo discurso de meritocracia, mas também fica muito preso à origem dele. Então tem uma mistura dessas grandes matrizes de pensamento identificadas com esquerda e direita que, no livro, estão um pouco mais confusas. O livro não é sobre meio termo. Eu quero, pelo menos, tentar entender o lado dos personagens”, explica o autor, que começou a escrever o romance em 2017 e terminou no ano passado. “Comecei antes do surgimento do Bolsonaro como candidato viável e terminei no meio da covid. Foi um processo. O livro sempre muda muito no meio do caminho, mas ele acabou mudando muito porque minha visão sobre a política brasileira mudou nesse período.”

O título do romance faz uma referência ao conflito entre Israel e Palestina e funciona como uma ironia. “É uma solução que não é solução. É como vejo um pouco nosso atual momento. A gente fala em reconciliação e perdão, mas são palavras tão vazias quanto uma solução de dois estados”, avisa Laub, em conversa sobre o romance com o Leio de tudo.

Você diz que o livro mudou muito enquanto estava sendo escrito, sobretudo porque tua visão política mudou por conta da eleição e da pandemia. Como foi isso?

Esses grandes fatos, eleição e covid, foram alguns dos exemplos mais fortes, entre vários outros, que me fizeram mudar a ideia para o livro. A ideia inicial era um sentimento de perplexidade e indignação em relação à divisão da sociedade, mas ainda tinha uma visão que era presa à ideia de possibilidade de meio termo e reconciliação. Mas o processo todo me fez enxergar que a coisa era mais grave do que parecia a mais essencial em termos éticos. Ele acabou sendo um livro mais amargo, que aponta para menos saídas do que inicialmente pensei que iria apontar. A personagem da cineasta não era bem um alter ego, mas era o que mais representava o que eu pensava e, ao longo do período, isso foi mudando, os personagens passaram a atacar a cineasta no processo por causa do meu processo pessoal. Ela sai do livro perplexa.

No livro, temos uma artista plástica com postura mais aberta e um empresário conservador. Como construiu os personagens e como evitou que emergisse um discurso de polarização política?

A personagem é muito mais ligada à ideia de determinismo do que o Alexandre, mas fui construindo sem pensar muito se vai ser direita ou esquerda, fui muito seguindo os personagens. Bem ou mal, essa ideia de seguir os personagens, de entender o que falam, os interesses, os desejos, para mim é algo meio essencial na ficção porque, sem isso, eles ficam muito esquemáticos. Entendendo o que cada um queria, acho que consegui, inclusive, misturar coisas que podiam ser muito de esquerda e de direita. Tem coisas misturadas e não são coisas muito propositais, foram surgindo no processo de escrita. Esse processo tem muito uma coisa de uma frase, depois outra. E você vai vendo o que é adequado na voz desse personagem. Claro que, num livro desse, tem muita a tentação de tratar de todas as questões, mas, às vezes, não combinava com a voz do personagem X ou Y. É isso que a ficção faz, vai te levando para um lugar que você não esperava.

A falta dessa preocupação de querer compreender todos os lados também te preocupa quando você pensa no Brasil de hoje? Você consegue fazer isso?

Tentar entender é uma tarefa da ficção, se colocar na cabeça do personagem. É um processo muito típico da arte, que acaba virando uma coisa quase psicanalítica. No romance, posso ser generoso. Às vezes, na vida real, não consigo ser. Não consigo ter a mesma intenção de entender. Cedo a todas as facilidades emocionais que a gente tem hoje em dia: raiva, rancor. Mas quando vou escrever, até por não serem pessoas reais, talvez seja mais fácil.

A ficção, então, permite o diálogo?

Hoje vejo com mais humildade do que quando comecei a escrever. A ficção, por menor que seja, é o único espaço realmente que tem essa possibilidade de ter algum diálogo com algo que nem sei oque é, às vezes comigo mesmo. E, por menos livro que venda, por pouco que se fale da literatura, acredito que, individualmente, ela consegue ter um deslocamento de sensibilidade e visão de mundo, o mínimo que seja. Isso é uma coisa que ainda vale a pena e acaba sendo o meu momento de sair um pouco dessa coisa muito opressiva que a gente tem. Claro, como todo mundo, tenho minha vida familiar, desafetos e tal. Escrever é um refresco desse mundo. E literatura não é só intelectual, tem uma coisa muito emocional. Na relação com o mundo, a ficção é um lugar no qual ainda me sinto bem.

Esse formato de entrevista também é uma novidade na maneira como você escreve. Por que escolheu essa estrutura?

Sempre gostei muito do formato de entrevista, mas ainda não tinha encontrado o tom. É um tom muito coloquial e, às vezes, tem a ver com o que considero uma deficiência minha, que é o diálogo. Tentei algumas vezes e nunca funcionava. Dessa vez, o livro é praticamente só diálogo, acaba um bloco e começa outro a partir de uma pergunta. Para mim, foi um desafio muito grande e é legal colocar desafios porque é aí que está o segredo do livro. Talvez por isso tenha demorado tanto. Me deu muito trabalho, muita angústia, mas quando achei que estava funcionando, me deu muito prazer.

Como você está enfrentando esse momento de necessidade de isolamento por causa da pandemia?

Foram muitas fases. A gente teve um período inicial, bem fechado, depois deu uma melhorada, chegamos a achar que estava diminuindo. Em outubro e novembro cheguei a ir a restaurante, fazer coisas ao ar livre, mas não muito. Logo os casos começaram a aumentar e a gente voltou pra casa. Para quem tem condições materiais de trabalhar em casa, ficar em casa não é uma questão. A questão é administrar o sentimento que a quarentena traz: angústia em relação às pessoas próximas e em relação ao país. Quem tem o mínimo de sensibilidade não passa ao largo disso. E o outro é raiva. Nas redes sociais, você já passa muita raiva e hoje passo mais tempo nas redes sociais do que passava antes, porque antes saía. É muita notícia desanimadora, que é produzida para isso. Essa produção infinita de narrativas por meio de grupos radicais faz com que a gente entre muito nesse jogo e traz essa angústia. E você entra numa apatia em determinado momento que dá medo de ter uma depressão. Mas consegui me livrar disso. Estou conseguindo viver, não estou deitado na cama. Vamos ver como fica este ano. Espero que sirva para aprender alguma coisa, mas acho muito triste que a gente passe por tudo isso e não se faça nada em relação ao próprio governo. Seria uma decepção maior do que a gente já tem.

Fazer o quê, por exemplo?

O que for… Fazer com que as pessoas se conscientizem de alguma maneira. Que se tenha também uma consciência de que será preciso fazer algum tipo de aliança de vários setores da sociedade. E mais tarde, quando tudo acabar, se tudo acabar, pro futuro, é uma questão de um grande debate dos setores mais instruídos de como fazer. É uma lição que a gente teve: tantas décadas de descaso com a educação, com a cultura acabam fazendo com que boa parte da população se apegue a soluções fáceis. Não culpo a parte mais pobre. Tenho raiva da elite instruída que deixou isso acontecer. E não se trata de perder ou ganhar uma eleição. A gente está vendo nos EUA, o Trump perdeu mas 74 milhões votaram nele. Não é um resultado de eleição que muda isso. Não é a repressão que muda isso.

Fonte: Correio Braziliense