O lirismo cirúrgico de Adriana Lisboa

06/03/2013. Crédito: Julie Harris/Divulgacao. Escritora Adriana Lisboa.

A perda inesperada da mãe, em 2014, mobilizou a escritora Adriana Lisboa para escrever Todos os santos. Devastada, ela precisou lidar com um luto que, até então, era apenas uma probabilidade remota. Ao enfrentar a dor do desaparecimento materno, encontrou um eco literário extremamente delicado. Todos os santos é um livro triste e melancólico, costurado por uma combinação de palavras cirurgicamente pinçadas no léxico lírico que Adriana manuseia tão bem.

Vanessa e André formam um jovem casal de pesquisadores que emigrou para a Nova Zelândia na expectativa de estudar o comportamento de uma categoria específica de pássaros. Amigos na infância, amantes na adolescência, eles são fruto de um encontro marcado por tragédia. Vanessa perdeu o irmão afogado em uma piscina de clube durante uma festinha de aniversário de criança. O acidente destroçou a família da menina, os pais se separaram e o pai se aproximou da mãe de André, o que estreitou a convivência entre os jovens. De uma paixão adolescente para uma vida em comum, a trajetória de André e Vanessa parece romântica e óbvia, mas um segredo plantado entre os dois há décadas vai abrir caminhos que escapam da banalidade.

O plot é pouco para falar da escrita da Adriana Lisboa, marcada por uma maneira de construir o espaço literário que emociona e desconcerta. O romance traz aspectos que sempre estiveram presentes no universo da autora, como os deslocamentos, um contexto contemporâneo, uma ideia (nada idealizada) de Brasil, referências na história recente do país e uma ligação muito intensa com a poesia. Em Todos os santos, ela acrescenta mais uma: a preocupação com o planeta.

No espectro de dores dos personagens e no próprio rol de urgências de Adriana está a questão climática. “A questão que julgo mais importante dos nossos dias é o que o chamado Antropoceno vem representando de dano irreparável, sobretudo em termos de crise climática e extinções em massa — o que também envolve perda e luto, para além de uma necessidade urgente de ação”, diz, em entrevista, por e-mail, enviada de Austin (Estados Unidos), onde dá aulas no Departamento de Espanhol e Português da Universidade do Texas. “Gosto muito do convívio com o espanhol e a cultura mexicana e centro-americana, por estar tão perto da fronteira (embora nesta mesma fronteira a gravíssima crise migratória seja outro dos vexames deste governo)”, repara, depois de morar no Colorado por uma década e de um breve período na Nova Zelândia. “Mas vou todos os anos ao Brasil, onde tenho família, amigos e muitos elos afetivos. Continuo escrevendo em português e acho que isso não vai mudar nunca”, avisa.

Fonte: Correio Braziliense