Pandemia é cenário para ficção de autores brasileiros

O zumbi tem seu lugar no folclore brasileiro. Por aqui, ele é o corpo-seco, o unhudo, o menino respondão e malvado que, de tão ruim, não foi aceito nem no céu, nem no inferno. Ficou por aí, entre as árvores e as folhagens, zanzando meio morto, meio vivo, mais morto do que vivo. A metáfora era perfeita para a ideia do editor Marcelo Ferroni, que há anos queria fazer um livro de zumbi à brasileira. Convencido de que esse tipo de literatura tem qualidade e conteúdo, encontrou abrigo na editora Luara França, que abraçou a ideia de convidar outros autores e transformar quatro textos escritos individualmente em um romance. O resultado está em Corpos secos, lançado pela Alfaguara no finalzinho de março e que traz incrível eco contemporâneo com pandemias e mundo paralisado, apesar de ter sido pensado e escrito entre 2018 e 2019.

Ferroni convidou para o projeto Natália Borges Polesso, Luisa Gleiser e Samir Machado de Machado, um trio cuja produção tem sido vista aqui e ali em lista de premiados e finalistas de concursos bastante relevantes. Todos partiram da mesma premissa: uma pandemia trouxe para o Brasil um vírus desconhecido capaz de transformar os vivos em corpos secos sem eira nem beira e cujos esporos viajam pelo ar para contaminar os saudáveis. Cada autor criou um personagem, mas todos os capítulos se entrelaçam e convergem para um mesmo fim: vagar por uma terra de ninguém, devastada, sem lei e à mercê das regras brutais da sobrevivência a qualquer custo. Entre eles, um paciente imune cujo corpo não pode ser contaminado. Todos querem chegar a Florianópolis, aparentemente ilha intocada pela pandemia e protegida pelo exército.

O Rio de Janeiro cumpriu seu destino de caos apocalíptico e por lá deve passar uma das caravanas de personagens que levam o rapaz imune e o drive da pesquisa médica sobre o vírus para um lugar mais protegido, se é que existe. Corpos secos tem todos os elementos da literatura fantástica e de horror, assim como dos roteiros cinematográficos do gênero. Tem humor – a passagem por Paraty corre o risco de transformar o livro em comédia quando a caravana se depara com escritores zumbis remanescentes de uma Flip colapsada -, reflexões políticas (por que diabos um grupo confia tanto no que resta de um suposto governo em Florianópolis?) e ambientais. Esta última, aliás, traz a explicação para o surgimento do vírus letal: nem a natureza nem a espécie humana aguentaram o excesso de agrotóxico injetado na agricultura.

As coincidências que se observam em relação à pandemia do coronavírus são, acreditem, coincidências, mas também são fruto de uma observação que já não é assim tão exógena à percepção humana. Sabia-se, e infectologistas e epidemiologistas batem há muito tempo nessa tecla, que um dia uma epidemia de proporções globais atingiria o planeta. Patógenos existem aos montes e ficam mais próximos do homem à medida que essa espécie predadora e destruidora invade o espaço alheio. Isso, os ambientalistas, esses ativistas incômodos para um contingente nada desprezível de negacionistas do clima, também advertiram. Ou seja, é surpreendente que Corpos secos tenha sido escrito antes da pandemia do coronavírus, mas não surpreende que traga o cenário apocalíptico da espécie humana transtornada por suas próprias escolhas.

O momento, como observa Marcelo Ferroni, estava maduro para um livro assim. “Um dos motivos para querer fazer o livro é o período que a gente está vivendo, que é mundial e brasileiro: há muito tempo o mundo vem com essa loucura, essa exploração, essa questão de as pessoas mais pobres cada vez piores, os políticos cada vez piores e, no Brasil, um querendo comer o fígado do outro. É a base para fazer um grande livro para os mortos virem cobrar o preço”, diz o editor-escritor.

O quarteto começou a trabalhar no texto na metade de 2018 e se encontrou uma vez, em novembro do ano passado, quando boa parte do material já estava pronta. Em outubro de 2019, Corpos secos estava concluído. “E a gente foi atropelado pela realidade”, conta Natália, que passou por certo estranhamento quando se deu conta de que a epidemia na China tomou um cenário global. “É estranho agora”, constata.

A campanha de divulgação seria agressiva, com posters, cards sobre epidemias, advertências nas redes sociais. “Optamos por não fazer porque fazer isso agora é brincar com uma coisa séria. Como o livro foi pensado antes de tudo isso acontecer, a gente conseguiu se distanciar, mas é inevitável pensar em algumas coisas. A gente sempre acha, por exemplo, que nessas narrativas de fim de mundo a gente vai sair procurando uma salvação, mas neste momento estamos em casa, com a família”, repara Natália, que criou os personagens Constância e Conrado, irmãos gêmeos que vão ao encontro da mãe antes de tomar o rumo de Florianópolis. “Eu quis pensar nessas relações, o que acontece com elas durante uma mudança de paradigma no mundo”, avisa.

Foi dela, aliás, a ideia do agrotóxico como berço do novo vírus. “A gente tinha essa premissa de uma doença que aconteceu por uma irresponsabilidade dos seres humanos. Acho que nossos apocalipses são muito projetados por nós mesmos, pela nossa irresponsabilidade com o mundo. O que a gente está vivendo hoje é consequência de anos de não investimento em saúde, de negligência de investimento. Enquanto tivermos esse pensamento de que a terra é um recurso que podemos exaurir, vamos estar realmente plantando nosso apocalipse”, acredita a autora.

Para Samir Machado de Machado, 2020 trouxe uma realidade surreal. “Não era nossa intenção lançar um livro de mortos vivos dentro de uma pandemia real mas, querendo ou não, o livro conversa de forma imprevista com o momento atual”, diz. Como leitor e espectador, ele se interessa mais por cenários pós-apocalípticos do que pelo apocalipse em si. Para criar seus personagens e o rapaz imune ao vírus, Machado se inspirou em uma coleção de histórias contidas no cinema, na literatura e no videogame. “Tem muitas referências para criar essas sensações de desamparo que talvez tenham sido um reflexo da eleição de 2018, de que acabou alguma coisa que não sabemos o que é, talvez nossa expectativa com o futuro. Eu quase só escrevo romances históricos e esse é meu primeiro romance contemporâneo, acho que é minha forma de comentar o momento contemporâneo”, reflete.

Quando Luisa Gleiser olha para o livro hoje, fica até com vontade de fazer pequenas modificações. Ela foi a primeira a ser chamada por Marcelo Ferroni para o projeto e foi responsável por levar junto Natália e Machado. Luisa criou o pequeno Murilo, uma criança, pensando num artifício que o personagem infantil poderia conferir: o ponto de vista de uma criança permitiria muitas liberdades, sobretudo em primeira pessoa. Mas a pandemia do mundo real trouxe outras ideias. “A gente vê isso acontecendo agora e nunca pensou que algumas coisas fossem uma questão, como o papel higiênico que as pessoas compram em excesso”, repara. “Agora fico com ideias de fazer adendos no livro porque tem várias coisas que parecem óbvias e não são, como essa coisa do acúmulo de papel higiênico. E a gente nota uma dissonância, cada momento tem uma pessoa dizendo uma coisa, há uma disputa por narrativas que também está no livro.”

Fonte: Correio Braziliense