Poeta Louise Glück vencedora do Nobel 2020 terá obra editada no Brasil

Como vários outros grandes autores antes de vencer o Nobel de Literatura, Louise Glück não tinha livros traduzidos no Brasil, mesmo sendo uma figura central da poesia americana nas últimas décadas. Como era de se esperar, o prêmio da Academia Sueca, atribuído a ela no início do mês, mudou tudo. A partir de 2021, a poeta terá nove de seus 12 livros publicados por aqui pela Companhia das Letras, em quatro edições.

Já no primeiro semestre, a editora lançará uma coletânea reunindo três de suas obras mais recentes: “Faithful and virtuous night” (2014), “A village life” (2009) e “Averno” (2007). No segundo semestre sai o seu mais novo trabalho, “Winter recipes from the collective”, ainda inédito nos Estados Unidos, que explora temas caros à autora, como o tempo e a proximidade da morte. As traduções ficaram a cargo de Heloisa Jahn, Bruna Beber e Marília Garcia.

Em 2022 e 2023, devem chegar às livrarias outras duas coletâneas trazendo os seus títulos mais antigos, quase todos escritos nos anos 1990.

A disputa pela obra da poeta pós-Nobel, conta a editora Alice Sant’Anna, da Companhia das Letras, foi acirrada.

— Acho que a trajetória de Louise Glück por aqui tem tudo para seguir o mesmo caminho de Wisława Szymborska, que também se tornou um sucesso comercial após o Nobel — diz Alice. — São poetas muito diferentes, mas elas têm em comum uma poesia direta e acessível, que traz temas pesados sem hermetismos.

Os críticos devem concordar com Alice, já que costumam citar a limpidez e a fluência dos versos como um dos grandes atrativos da obra da autora, condecorada pelo ex-presidente americano Barack Obama com a Medalha Nacional de Artes e Humanidades em 2015. Apesar de recorrer com frequência à mitologia greco-romana e e à História, seus livros buscam temas e sentimentos universais, sem soarem pretensiosos.

Entre os títulos mais antigos de Glück, um dos mais conhecidos lá fora é “The wild iris”, vencedor dos prêmios Pullitzer e William Carlos Williams de 1993, e que estará presente na última coletânea da série. Elogiado pela crítica, o livro é representativo da maneira como a poeta incorpora a natureza em seus versos, fazendo de um jardim e suas plantas um elemento central. Três vozes se alternam: a vegetação que fala à jardineira; a poeta; e a figura onisciente de um deus. Ele deverá sair por aqui na última coletânea da série, em 2022.

Outros títulos presentes nas três coletâneas são “The seven ages” (2001), “Vita nova” (1999), “Meadowlands” (1997), “Ararat” (1990) e “The triumph of Achilles” (1985).

— Cada livro tem a sua unidade, com os poemas formando uma relação muito forte entre si — diz Alice. — Por isso optamos por lançar livros inteiros e não antologias com poemas esparsos. O leitor entra melhor na obra dessa forma.

Em uma entrevista para um funcionário da Academia Sueca, logo após o anúncio do Nobel, Glück recomendou aos leitores de primeira viagem que não lessem seus livros antigos (para não “sentirem desprezo”) e começassem pelos lançamentos mais recentes. “Talvez ‘Averno’ seja um bom começo”, disse ela.

O leitor brasileiro poderá saber agora se a autora tem razão. Finalista do National Book Award Finalist, “Averno” será traduzido por aqui por Heloisa Jahn. O título é uma referência ao lago Avernus, em Nápoles, que na mitologia clássica era visto como um portal para a Terra dos Mortos.

—Para mim, essa é uma experiência única, empolgante. É um parque de descobertas entrar no mundo de um poeta como tradutora — conta Heloisa. — Eu gosto de ler pela primeira vez já traduzindo, é o que estou fazendo agora. Construir o mimetismo possível. Assim busco uma espécie de desvendamento a cada poema: um caminho de entrada. E depois, nas inúmeras leituras sucessivas, procuro ler “de fora” a tradução para poder melhorar a forma final dos poemas.

A poeta Bruna Beber, que ficou responsável pela tradução de “A village life”, percebe na poesia de Glück uma aparente simplicidade, que recebe com cuidado os seus leitores. O livro traz uma série de instantâneos do estilo de vida mediterrâneo.

— Aos poucos, a poesia de Louise Glück revela a sua franqueza, que é polimorfa, e um conhecimento da matéria humana e do mundo natural em suas espessuras e variações — observa Bruna. — Como se ela escrevesse a partir de uma superfície circundante, de um princípio vital, e do planificado que conhecemos como realidade se comunicasse com um extratempo, e escarafunchasse as zonas enlameadas, ao passo que dilata e calibra as luminosidades do ser.

Fonte: O Globo