Racismo, violência e relações familiares no terceiro romance de Jeferson Tenório

Jeferson Tenório sempre gostou de escrever, mas nunca havia pensado em entrar para a faculdade de letras até ser abordado pela polícia, aos 18 anos, quando saía do trabalho numa pizzaria de Porto Alegre. O episódio desencadeou um processo de consciência racial e literária cujo fruto é um respiro profundo para a literatura brasileira contemporânea. O avesso da pele, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, deveria ser lido por brasileiros de todas as idades, cores e formações. Terceiro romance do autor, o livro fala de uma realidade conhecida por muitos brasileiros cuja cidadania é usurpada todos os dias e de várias formas, do desprezo do Estado pela educação ao descaso diante das estatísticas raciais.

No romance, Henrique é um professor de literatura, negro, pai do narrador, para o qual foi, na maior parte do tempo, uma figura ausente. É para ele que o livro se escreve e por ele que o autor explora diversas vozes narrativas. Tenório varia entre o discurso direto, com o filho se dirigindo diretamente ao pai, e a construção, em terceira pessoa, de uma estratégia que dá ao texto a delicadeza e a intimidade responsáveis por estabelecer uma ponte emotiva com o leitor. É difícil não se emocionar, não sentir empatia e não se aproximar desses personagens. O romance tem feito tanto sucesso que os direitos foram vendidos para a produtora RT Features, de Rodrigo Teixeira, e para editoras em Portugal e Itália. Tenório, que tem 43 anos, também foi um dos convidados do programa Conversa com Bial, na primeira quinzena de outubro.

O avesso da pele fala de racismo, mas não só. As relações familiares, a tragédia que elas muitas vezes engendram e a educação se mesclam à questão racial na construção de um romance potente. O filho conta a história do pai após sua morte, fruto de uma abordagem policial violenta e descabida, e, nessa tentativa de construir uma narrativa familiar, o narrador investiga suas próprias origens.

Há muito da experiência de Tenório no livro. Ele mesmo é professor de literatura e já passou por uma boa dose de abordagens policiais associadas unicamente ao fato de ser negro. O autor entrou para a faculdade de literatura depois de fazer vestibular para uma instituição privada. Nos primeiros anos, comprou tantos livros que ficou endividado e precisou largar o curso. Foi, então, fazer vestibular para uma universidade pública. Passou e descobriu um mundo do qual se apropriou com avidez. “Sempre gostei de escrever, eu tinha diários, mas lia muito pouco. Com 18 anos, escrevi uma novela, à mão, em folhas de ofício, cerca de 200 páginas. Minhas referências eram as novelas televisivas. Quando entrei na faculdade, descobri o mundo da literatura, que não conhecia. Então, até me apropriar da literatura mais canônica ocidental, demorou um pouco e, talvez por isso, tenha escrito tardiamente”, conta.

O primeiro livro, O beijo na parede, veio em 2013, quando o autor completou 36 anos. A recepção foi boa e puxou o segundo romance, Estela de Deus, cinco anos depois. “Dos três livros que tenho, O avesso da pele foi o que se aproximou mais da minha vida, mas ele surge, na verdade, a partir de um livro que gosto bastante que é o Hamlet, a história de um filho que tem uma relação com um pai fantasma. Eu sempre quis escrever um livro sobre ausência paterna. E também queria falar sobre um professor de literatura. Depois de sofrer uma abordagem policial em Porto Alegre, em 2016, achei que podia abordar esses três temas: ausência paterna, violência policial e educação”, conta o autor. “Tenho claro para mim que a literatura não aceita muito a realidade, tem limite para suportar o que faz parte do real. Mas o autor sempre vai utilizar o material biográfico para poder escrever. Sempre procuro transfigurar o material biográfico de modo que se torne ficcional e que invente uma realidade, e não que reproduza uma realidade.”

Para Tenório, a representação do negro na literatura contemporânea brasileira tem mudado nos últimos 10 anos. Há, ele observa, mais autores negros no mercado e, por isso, mais personagens negros. A tendência seria uma consequência da maior quantidade de alunos negros nas universidades, um dos frutos da política de cotas. “E houve um esgotamento de narrativas de autores oriundos do sudeste e das capitais, desse lugares geográficos, houve um esgotamento desse tipo de narrativa e um aumento de demanda por um tipo de narrativa que falasse de racismo, de homofobia. Houve uma amplitude nos temas”, explica, ao admitir que se inclui nessa geração.

A consciência da negritude, para Tenório, tem a ver, com a consciência de escritor. “Acontece na adolescência, quando vou me dando conta de algumas coisas, e na vida adulta, quando consigo aliar essa consciência a uma investigação intelectual”, repara. Estudar a história do racismo fez com que atingisse esse estado de percepção tanto na escrita quanto na percepção do lugar da discussão racial na sociedade. “Mas sempre tomando cuidado para não colocar a questão racial na frente da literatura. Sempre me preocupei com a questão estética e o racismo pode ou não atravessar a criação, e atravessa porque me toca porque é sensível a mim.”

Fonte: Correio Braziliense