Romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2020 ganha o leitor por pontos e nocaute

Clarice Lispector, 100 anos: amigas relembram intuições, dramas e diferenças geracionais
17 de dezembro de 2020
Sérgio Sant’Anna sempre esteve ligada à ideia de imperfeição como potência
26 de dezembro de 2020

Não é de hoje que o boxe seduz escritores. Cortázar, Hemingway e Conan Doyle, por exemplo, eram fãs da luta. Dá para entender. É um espetáculo realista por excelência, um drama que exige técnica, reflexão, reflexos, criação, ação, timing. “Encontro você no oitavo round”, de Caê Guimarães, reforça essa mítica. Narrado por um boxeador em fim de carreira, é um romance potente e impávido que nem Muhammad Ali, merecendo o Prêmio Sesc de Literatura 2020 (assim como “Terra nos cabelos”, de Tônio Caetano, considerado o melhor livro de contos).

O monólogo dá voz a Cris, Cristiano Machado Amoroso — que ressalta que não há apelidos aí, mas apenas sobrenomes, e que detesta trocadilhos. Quando jovem, Cris desistiu do jornalismo, engavetou sua poesia e abraçou o boxe. Ganhou fama nos ringues do país, mas começou a decair quando foi nocauteado numa disputa importante. Desde então, restaram-lhe somente apresentações em ginásios obscuros e um zumbido quase permanente na cabeça.

Chegando aos 40 anos, Cris está às vésperas de sua última luta. Tudo está arranjado: em troca de uma grana considerável, deverá jogar a toalha no quarto round. Fez isso em inúmeras ocasiões, sabendo que o business do entretenimento nem sempre respeita o espírito esportivo. Desta vez, no entanto, ele planeja secretamente não respeitar o trato, estendendo o embate além do combinado. Sabe que, fazendo isso, pode arranjar problemas sérios, mas não se mostra preocupado.

O que realmente preocupa o atleta, nesse momento tão atribulado, é abrir sua vida para a jornalista Ester, que quer escrever uma reportagem sobre o talento literário do ex-escritor. Mas Cris tem seus segredos e teme que a repórter os descubra.

Ester é uma coadjuvante de peso. É a ela que o protagonista se dirige no monólogo, é ela quem o provoca a mergulhar na sua história. Para isso, Cris tem que duelar consigo mesmo, e isso nunca é moleza. Pouco a pouco, o relacionamento entre os dois destampa casos surpreendentes, que fogem às histórias-clichês dos grandes lutadores, e consegue a proeza de ensaiar filosofia e poesia entre jabs e esquivas, tudo no seu tempo certo, sem desperdício de energia.

Nesse campo tão vasto em conflitos, e por isso mesmo tão cheio de literatura bruta, a trama mostra que as contusões visíveis de quem se mete na luta (ou na vida) são as menos traumáticas: somem com remédios, talas, pontos cirúrgicos. Já as fraturas existenciais, que o grande público ignora, não desaparecem de vez e sempre voltam para azucrinar o lutador — como se fossem um zumbido intermitente.

Apaixonado por boxe desde criança, Caê Guimarães, de 50 anos, criou uma narrativa que acompanha a mobilidade de um pugilista no ringue. Vive “fingindo estar onde não está”, sempre se livrando de golpes repentinos. Ora esbanjando leveza, ora sentando a porrada no oponente, as reflexões de Cris e de seus interlocutores variam entre ideias profundas e questões cotidianas. Suas palavras são bem colocadas, encadeadas em ritmos vários, conforme o momento, ou o movimento, que a ação exige.

Por baixo da leitura superficial, “Encontro você no oitavo round” pode esconder uma história de derrotas, superações, segredos, vinganças, isso ou aquilo. E pode ser também uma grande representação da vida, suas dores e delícias, com a sábia decisão — estratégica — de fugir do discurso do ressentimento e das lamúrias. Abrindo mão de caminhos menos atribulados, Cris assume a responsabilidade pelo seu destino e assimila bem os golpes das suas escolhas. Assim é o boxe, assim é a literatura.

Por último, é inevitável terminar este comentário citando Cortázar. Certa vez, o mestre argentino disse que um romancista deve conquistar o leitor por pontos, batendo aos poucos, enquanto um contista deve ganhá-lo por nocaute. Caê Guimarães equilibrou-se com habilidade entre esses dois gêneros de luta literária. Somou pontos a cada capítulo e, não satisfeito, ainda decidiu nocautear o leitor na última página. Nem precisava.

Fonte: O Globo