Rosa Montero reedita livro sobre biografia de mulheres desconhecidas

Rosa Montero é viciada em biografias. Em casa, em Madri, ela guarda uma biblioteca com centenas de volumes desse gênero. Neles a escritora espanhola vislumbrou, pela primeira vez, lá pelo início dos anos 1990, a vontade de escrever um livro inteiro sobre mulheres históricas desconhecidas. “Como leitora assídua de biografias, descobri várias mulheres fascinantes que eram completas desconhecidas”, conta Rosa. “Eram absolutamente fascinantes e eu caí nelas por pura casualidade, com biografias que me levavam a outras biografias.” Na época, ela decidiu se aprofundar nas histórias dessas figuras, que renderam várias colunas para o jornal El País e o livro Nós, mulheres, publicado em 1995.

De lá pra cá, Rosa continuou a pesquisa e descobriu centenas de outras personagens cujos feitos haviam impactado do mundo das artes ao da ciência, o que fez a autora incrementar Nós, mulheres e reeditá-lo com um acréscimo de 90 outras personalidades. “Nessa nova edição há retratos de mulheres ao longo da história, de 4.300 anos atrás até agora. Essa seleção foi bem mais difícil. Tentei não colocar mulheres conhecidas. Há muito poucas conhecidas. E também tentei que fossem de diversas épocas, de diversas disciplinas, de todas as classes, heroicas, generosas, malvadíssimas, científicas, vedetes. Tudo, e com toda essa riquíssima diversidade do ser”, conta.

Para Rosa, o cenário mudou muito desde 1995, quando publicou o livro pela primeira vez. Naquela época, ela explica, se acreditava que havia pouquíssimas mulheres participantes ativas na história da humanidade simplesmente porque ao gênero não era permitido estudar. “Mas a realidade é muito pior e isso é o que descobrimos nesses anos que transcorreram desde 1995 até agora”, diz Rosa. “O que descobrimos é que, apesar de todas essas discriminações, havia muitíssimas mulheres que fizeram coisas grandiosas na história em todos os âmbitos, culturais, políticos, sociais, científicos, artísticos, todos, absolutamente todos. O que aconteceu é que os anais sexistas e a história discriminatória e machista borraram essas mulheres, o que fez com que fosse muito difícil para elas levar adiante seus trabalhos porque tinham que ficar à margem da história desde sempre.”

No livro, há uma ou outra mais conhecida, como Frida Khalo e Simone de Beauvoir, mas são as desconhecidas que dão o tempero de Nós, mulheres. Rosa avisa que nunca quis fazer um livro hagiográfico, ou seja, com personagens santificadas e boazinhas. Além disso, ela cuidou de equilibrar épocas e nacionalidades. “Elas não tinham que ser boas, algumas são absolutamente malvadas e terríveis, é um livro que celebra a força e a diversidade das mulheres. Creio que nós não queremos ser santas, queremos ser livres, ter a oportunidade de dizer o que queremos”, acredita. “Fui para as histórias que mais me haviam chocado e fascinado”.

Perseguir a trajetória de mulheres não é uma novidade na escrita da autora espanhola. O retrato amoroso de Marie Curie em A ridícula ideia de nunca mais te ver e a saga de uma personagem feminina obrigada a se vestir de homem para sobreviver nos tempos das cruzadas em História do rei transparente são duas belas incursões da autora pelo mundo feminino.

No entanto, foi com A louca da casa, uma narrativa divertida com pinceladas de autobiografia e biografia, porém ancorada na ficção, que a espanhola ficou mais conhecida no Brasil. Ex-redatora chefe do jornal El País, para o qual fez inúmeras entrevistas célebres que entraram para a história do jornalismo contemporâneo, Rosa Montero é também uma das romancistas mais premiadas da Espanha e publicou mais de 28 livros. Em entrevista ao Leio de Tudo, ela fala sobre o preparo dessa nova edição de Nós, mulheres, mas também sobre feminismo, história, gênero, sociedade e pandemia.

A primeira edição de Nós, mulheres saiu em 1995, uma época em que biografias femininas não chamavam tanto a atenção do público. O que mudou de 1995 para cá?

Mudou muito. Na época tínhamos mais ou menos a ideia de que as mulheres não haviam participado na história do mundo porque eram discriminadas, não podiam estudar. Temos que levar em conta que não pudemos estudar na universidade até o século 20. Na Espanha, por exemplo, a primeira mulher que pôde estudar na universidade foi em 1911.

As mulheres não eram donas legais de seus próprios destinos. Por conta dessas circunstâncias discriminatórias, se pensava que as mulheres, pobrezinhas, não podiam fazer nada. Mas a realidade é muito pior e isso é o que descobrimos nesses anos que transcorreram desde 1995 até agora: apesar de todas essas discriminações, havia muitíssimas mulheres que fizeram coisas grandiosas na história em todos os âmbitos, culturais, políticos, sociais, científicos, artísticos, todos, absolutamente todos.

O que acontece é que os anais sexistas e a história discriminatória e machista borraram essas mulheres. Isso fez com que fosse muito difícil para elas levar adiante seus trabalhos, tinham que ficar à margem da história desde sempre, sem poder contar com essa continuidade com que os homens contavam.

E isso é uma falsificação da história para todos nós, homens e mulheres, porque os louros de muitas mulheres foram atribuídos aos homens, maridos, colaboradores, professores, irmãos ou foram simplesmente ocultados. Agora estamos sabendo um pouco mais da nossa própria história e, quando tudo isso vier à tona, realmente haverá uma mudança mais igualitária no mundo.