Sílabas tônicas em poema grego do século 2 surpreendem pesquisadores

Um novo estudo feito pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, revela que o uso de sílabas tônicas em poesia já era feito pelo menos desde o século 2 — 300 anos antes do que se pensava. A descoberta aconteceu depois de especialistas analisarem um poema anônimo popular no Império Romano oriental, que circulava oralmente e foi encontrado em diversas pedras preciosas.

Na primeira versão do poema escrito em grego antigo, a tradução livre em português se aproximaria de algo como “Eles dizem o que gostam/Deixe que digam/Eu não me importo”. Outros escritos apresentam dois versos adicionais: “Vá em frente, me ame/Faz-lhe bem”.

A métrica observada na versão original é diferente da comumente utilizada na poesia grega antiga, de acordo com Tim Whitmarsh, professor de Cambridge. Além de sinais de sílabas longas e curtas — características do verso quantitativo tradicional —, o texto carrega sílabas tônicas e átonos, cuja presença ainda não havia sido documentada antes do século 5, quando começou a ser usada em hinos cristãos bizantinos.

“Você não precisava de poetas especializados para criar esse tipo de linguagem musicalizada, e a dicção é muito simples, então esta era claramente uma forma democratizadora da literatura”, diz Whitmarsh, em comunicado.

Publicado em agosto no The Cambridge Classic Journal, o estudo também sugere que o poema poderia ser um “elo perdido” entre o mundo da poesia oral e música no Mediterrâneo antigo e as formas modernas que conhecemos hoje. “Estamos tendo um vislumbre emocionante de uma forma de cultura pop oral que estava sob a superfície da cultura clássica”, adiciona o professor.

Em versos com quatro sílabas, o ritmo é garantido pelos acentos na primeira e na terceira sílabas, sendo mais forte na inicial e mais fraco na outra. Para Whitmarsh, a descoberta confirma hipóteses de estudiosos do período medieval, de que “a forma dominante do versículo bizantino teria se desenvolvido organicamente a partir de mudanças que surgiram na antiguidade clássica”.

Por que só agora?

Embora os registros do poema já tivessem sido descobertos, só agora os especialistas se deram conta da novidade. “Esses artefatos foram pesquisados isoladamente. As pedras preciosas são estudadas por um conjunto de estudiosos e as inscrições sobre eles, por outro [grupo de pesquisadores]”, justifica o professor. “Eles não haviam sido estudados como literatura anteriormente. As pessoas que olham para essas peças geralmente não estão procurando mudanças nos padrões métricos.”

Hoje no Museu de Aquincum, em Budapeste, o exemplo mais preservado de uma pedra preciosa com o poema foi encontrado ao redor do pescoço de uma jovem enterrada em um sarcófago na atual Hungria. O texto foi encontrado com frequência em pedras como ágatas, ônix ou variedades de calcedônia, mineral abundante e relativamente barato na região do Mediterrâneo.

Para Whitmarsh, a distribuição de pedras preciosas da Espanha à Mesopotâmia remete a uma cultura de individualismo em massa, e os acessórios teriam sido comprados principalmente por pessoas de classe média na sociedade romana.

Discurso mais próximo da população

O individualismo também estaria associado ao significado do poema, sugere o estudo. Em contraponto a uma crença popular, representada pelos versos “Eles dizem o que gostam/Deixe que digam”, o eu lírico do texto estaria reivindicando sua independência filosófica, que distancia a situação de uma crítica a fofocas banais.

As duas linhas extras que mencionam o amor trazem ao poema um teor romântico e íntimo que, na visão dos pesquisadores, indica um cenário erótico e estaria sendo desaprovado pela sociedade.

A relação criada entre “você” e “eu” oferece um sentimento que poderia se encaixar a praticamente qualquer pessoa que declamasse a poesia. “Acho que o poema agradou porque permitiu que as pessoas escapassem da classificação local e reivindicassem participação em uma rede de sofisticados que ‘detêm’ esse tipo de discurso brincalhão e sexualmente carregado”, defende Whitmarsh.

O professor vê o texto como uma cultura pop que vem de baixo para cima e não foi imposta pela elite, assim como outros elementos do mundo clássico. A aproximação a camadas mais populares contribuiu inclusive para a disseminação do Cristianismo, argumenta ele: “quando os cristãos começaram a escrever hinos, eles sabiam que os poemas nesta forma tônica ressoariam com pessoas comuns”.

O que levou Whitmarsh a ser despertado para analisar o poema foi uma interação com Anna Lefteratou, uma colega de Cambridge, pelo Twitter. Após postar um tuíte mostrando o inscrito que o remetia a formas métricas, Lefteratou, que fala grego fluentemente, mencionou outras poesias medievais posteriores. “Isso me levou a cavar sob a superfície e ver que as ligações com a poesia bizantina tornaram-se cada vez mais claras”, conclui Whitmarsh.

Fonte: Revista Galileu

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