As Três Irmãs

A peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchecov, nasceu no século XIX e contém muitas características encontradas nas obras da época. Os homens eram mais passivos, questionavam sua existência e pararam de lutar contra o mundo exterior. Encontraram um outro campo de batalha, começaram a lutar consigo mesmos, o que fica claro nessa peça onde há monólogo interiores. As peças começam a mostrar o lado psicológico dos personagens. No centro desses debates interiores, estão a verdade e a justiça se confrontando. Assim vemos os homens confrontando seus destinos e sonhos, e indivíduos confrontando a sociedade.

Tchecov mostrou as injustiças da vida, os ideais espirituais, beleza em todas as formas, tédio, vazio, desigualdades, entre outros temas. Seus personagens existiam em uma nação e em classes sociais através de situações cotidianas da vida da época. Situações cotidianas essas mostradas de forma sutil, escolhendo os temas perfeitos. Não há um confronto cênico clássico, pelo menos em “As Três irmãs”. Aqui os eventos psicológicos, sentimentos e conflitos internos dos personagens passam pelo tempo – passado, presente e o futuro – e vemos o tempo escapando, fugindo e ficando cada vez mais distante. E é aí que as situações ficam tensas. Em “As Três Irmãs”, na passagem do tempo prevalece o desespero e a saudade.

Os temas abrangidos na peça “As Três Irmãs” são a decepção, a saudade. Vários anos na vida dos irmãos Prozorov durante os quais cada um deles anseia por um futuro que parece inatingível. Para as irmãs, esse futuro encontra-se na amada cidade natal, Moscou; para o irmão delas, Andrey, é uma fuga do trabalho medíocre e do casamento em que se envolveu. Tchecov mostra, através das reminiscências e anseios, a fixação dos personagens por algo que não tem. A felicidade estará fora do alcance.

Para as Três irmãs, Moscou representa as coisas inatingíveis que elas querem da vida. No primeiro ato, Olga, uma das irmãs diz:

[…] “Eu me lembro muito bem de que nos começos de maio, nesta época, Moscou já estava toda coberta de flores. E não chovia. E havia sol. Já se passaram onze anos, mas eu me lembro de tudo, como se fosse ontem”. […] Meu Deus! Esta manhã despertei, vi todas essas luzes, senti a primavera e a alegria estourou em meu coração, e eu apaixonadamente tive vontade de voltar para a nossa casa, para nossa terra natal.” (pg17, pg18)

Moscou é o lar de Olga, e a beleza em sua residência provinciana a deixa infeliz, um sentimento de melancolia oriundo da vontade de estar em outro lugar, ou seja, Moscou. Irina, a outra irmã, despreza o seu trabalho no telégrafo e a sua única felicidade está na possibilidade de ir para Moscou. Irina diz:

“como sou infeliz… Não posso trabalhar, não trabalharei… Basta, basta! Já estive no telégrafo, agora estou na administração da cidade… e odeio desprezo tudo quanto me obrigam a fazer… Brevemente farei vinte e quatro anos. Trabalho há muito tempo. Tenho cérebro ressecado, emagrecei, enfeiei, envelheci e nada… Nenhuma alegria em minha vida. O tempo passa e sempre me parece que nós estamos afastamos cada vez mais da vida verdadeira e bela… que nos afastamos cada vez mais, atraídos para não sei que abismo. Estou desesperada… não sei como ainda estou viva… não compreendo por que ainda não me matei…” (pág. 81)

[…] “Eu esperava. Iriamos para Moscou e lá encontraríamos o verdadeiro amor… E sonhava com ele… e o amava…, mas tudo não passou de imaginação… absurda.” (pg81)

Irina acredita que se mudar para Moscou é a única maneira de realizar todos os seus desejos reprimidos. Mais tarde, Masha, a outra irmã, afirma que, se ela estivesse em Moscou, ela não se importaria com o mau tempo. Ela é uma artista que sente que seus talentos são lamentavelmente desvalorizados por morar em uma pequena província. Casada com Kulygin, quando ela tinha 18 anos, pensava que ele fosse um homem inteligente, mas percebe que ele não é, e fica cada vez mais descontente com o casamento. E se vê atraída por Vershinin, coronel que simplesmente ama Moscou, por causa de sua conversa intelectual, e um caso começa. O caso é um segredo aberto. Depois que Vershinin sai, Kulygin a perdoa e se compromete novamente com o casamento, embora Masha continue insatisfeita e desolada.

“Vershinin: que lhe poderei dizer, antes de partir? Sobre qual tema filosofar uma última vez? (risos) A vida é pesada para se carregar. Muitos entre nós a consideram silenciosa e desesperada e, no entanto, devemos confessar que ela se torna dia a dia mais luminosa, mais fácil e tudo que nos faz crer que não está longe o tempo em que ela se iluminará inteiramente. (olha o relógio). Preciso partir, preciso partir. Antigamente a humanidade estava sempre ocupada pelas guerras, pelas invasões, pelas vitórias… Hoje tudo isso já foi vivido, deixando para trás um enorme vazio que não sabemos evidentemente como preencher. A humanidade procura apaixonadamente e encontrará, é certo. Ah! Mas que ela se apresse (Pausa.) Se se juntasse a cultura à capacidade de trabalho e a capacidade de trabalho à cultura então… (olha o relógio) Mas preciso absolutamente partir.” (pág. 104)

Vamos à história?

A peça divide-se em 4 atos. No primeiro ato, vemos um claro contraste entre a vida que a família Prozorov vive e a vida que eles acham que merecem viver e, ao fazê-lo, introduz os temas da nostalgia e da insatisfação. A família Prozorov é uma família burguesa. Antes de se mudarem para uma província, a família morava em Moscou, a família dava festas memoráveis, as irmãs passavam o tempo livre aprendendo novas línguas ou aprendendo instrumentos clássicos. As irmãs pensavam que se casariam bem e nunca precisariam trabalhar. Quando elas se mudam para a província, o pai morre e a realidade muda. Olga, a mais velha, trabalha como professora há quatro anos. Masha casou-se com Kulygin, que ela pensava que fosse um homem educado, mas não tinha a menor classe.

Nunca mais ela tocou música, e ninguém na província aprecia línguas. Em comum, todas as irmãs sentem-se superiores a todos os moradores da província. Irina é a irmã mais nova de Prozorov, ela tem 20 anos, é a mais animada e diverte-se com os presentes recebido por seus pretendentes. Fedotik e Chetykin são os mais dedicados a ela.

No ato 1, estamos na primavera, um dia de sol, até a chegada de Vershinin, que muda para melhor o clima de nostalgia da família. Ele representa uma conexão direta com a antiga vida em família em Moscou, e suas reflexões sobre o passado é uma lufada de futuro para todas as irmãs, principalmente para Masha.

Apesar de tudo, as irmãs têm esperanças de voltar para Moscou. Vershinin representa a vida intelectual que Masha deseja. No entanto, ela é casada. A vida de Irina está cheia de possibilidades e é por isso que ela descarta os seus pretendentes. Nostalgia e esperança são os sentimentos envolvidos.

O presente extravagante e a chegada de um novo amigo de sua antiga cidade natal criam uma atmosfera feliz. Até a Masha decidiu ficar e se divertir no almoço de família. Andrey, o irmão das irmãs, beija corajosamente Natasha e propõe casamento. A vida no Ato 1 é amigável e otimista.

No entanto, no Ato 2, as coisas não conseguem andar de uma forma satisfatória. Andrey, o irmão das irmãs, se mete em uma jogatina e perde. Colocando a situação da família, que já não era boa, em uma situação ainda mais difícil. O Ato 2 se passa em uma noite cinzenta de inverno. A única chance está nas mãos de Masha e Vershinin.

No Ato 3, o irmão Andrey confronta suas irmãs pelo tratamento pouco cortês com a sua mulher Natasha (uma provinciana). Tchebutykin, o médico militar e amigo da família que está bêbado, declara que a felicidade é uma ilusão:

“Tchebutykin: É bem possível… O relógio da mamãe é o relógio da mamãe. Aliás, talvez que não tenha quebrado de verdade, mas sim aparentemente. Pode ser até que nós mesmos só existamos aparentemente e que, na realidade, nada sejamos. Nada sei e ninguém sabe nada…” (pg76)

Para as irmãs, o simbolismo sugere que seu futuro está se esvaindo e elas não têm muito tempo a perder em sua busca pela felicidade. As irmãs se mostram impotentes para enfrentar as forças que ameaçam o provável destino delas.

Natasha, mulher provinciana que se transforma em uma Prozorov, no início provoca desprezo das irmãs. No entanto, logo depois de se casar com Andrey Prozorov, ela domina Andrey e tiraniza os servos. E, para piorar as coisas, ela tem um caso com Protopopov, que é o chefe do Conselho Distrital, no qual Andrey (seu marido) servia. Andrey vira a piada da cidade.

Irinia completa a desesperança quando ela abandona o sonho de um amor verdadeiro em Moscou, aceitando Tuzenbach e seu pedido de casamento, por desespero e não por amor. Assim como suas irmãs, está exausta.  Ao final do ato 3, com a aceitação de Irina da proposta de Tuzenbach e o reconhecimento do problema de jogo de Andrey (seu irmão), fica ainda mais claro que as irmãs nunca mais voltarão a Moscou. Dessa forma, seus sonhos foram simbolicamente queimados em chamas.

O ato 4 é uma inversão completa do ato 1, quando havia uma esperança, onde havia um almoço, em plena primavera. No ato 4, eles estão completamente sem esperança. A mudança do clima acentua a depressão. O ato de encerramento.

Cada um dos atos da peça aproximou as irmãs da desesperança e, no final da peça, elas estão completamente desiludidas. Qualquer esperança de felicidade a que se agarraram desapareceu. Olga não tem escolha a não ser se dedicar totalmente ao trabalho. Masha é puxada chorando dos braços de Vershinin enquanto ele se despede e volta para o seu ex-marido. O noivo de Irina, Tuzenbach, que ela nem amava, morreu. Até Andrey foi expulso de sua casa por Natasha enquanto seu amante, Protopopov, assume. Todos estão resignados à infelicidade. Irina, como Olga e Vershinin, agora sabe que a felicidade é uma ilusão; tudo o que ela pode fazer é trabalhar.

A encenação original de “As Três Irmãs” no Teatro de Arte de Moscou foi recebida com alguma confusão. Embora o público ficasse emocionado ao ver uma nova peça de Tchekhov, eles realmente não entendiam do que se tratava a peça. Como grande parte do trabalho de Tchekhov, temas e mensagens são encontrados no subtexto – as coisas não ditas.

A peça é diálogo, muito pouca ação acontece no palco. No entanto, nos diálogos aparecem os simbolismos. Constantin Stanislavski dirigiu a peça “As Três Irmãs”, e acabou sendo um sucesso. E acabou sendo a peça mais estudada e encenada do autor.

Fico por aqui, e indico “As Três Irmãs”, de Anton Tchekov, como um livro que merece um lugar de HONRA na sua estante.

Por Luiz Guilherme de Beaurepaire

Fonte: Bons Livros Para Ler

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